Ficha Técnica
Ano:2015
Duração: 19 minutos
Direção: Maria Leite
Roteiro: Eduardo Felix
Produção: Marcella Jacques
Animação: Daniel Herthel
Fotografia: Alexandre Baxter
Direção de arte: Daniel Herthel
Música: Daniel Potter
Elenco: Aggeo Simões
Prêmios
Melhor direção de arte pelo Festival Guarnicê de Cinema. São Luiz/MA - (2017)​​​​​​​
Melhor Animação no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Brasil (2016)
Melhor Stop motion brasileiro e Melhor Filme pela ABCA no Festival Internacional Brasil Stop Motion - Brasil (2015)
Melhor Fotografia no Curta Santos - Brasil (2015)
Melhor Fotografia no Festival Guarnicê de Cinema - Brasil (2017)
Melhor Animação no Festival Internacional de Nuevo Cine Latinoamericano - Cuba (2016)
texto crítico de Suyene Correia (Animação Brasileira: 100 filmes essenciais)
A designer industrial Maria Leite faz parte do grupo de animadores que persiste na produção artesanal. Unindo seu talento nato com o conhecimento adquirido no período de vivência e colaboração com a companhia de teatro de bonecos mineiro Giramundo, a diretora começou a experimentar técnicas mistas de animação, como o stopmotion, e construção de objetos. Realizou alguns vídeos institucionais, antes de enveredar, propriamente, pelo cinema de animação, produzindo, até o momento, os curtas-metragens Casa de máquinas (2007) e O quebra cabeça de Tarik (2015).
Há dois pontos que se destacam em O quebra cabeça de Tarik: a concepção estética e o roteiro. Um dos principais atrativos do stop motion é o detalhamento, a minúcia com que são criados os personagens e o mundo em que se desenvolverá a narrativa. Maria Leite não dispensou a contribuição de Daniel Herthel na direção de arte e animação, obtendo um resultado convincente, com personagens conectando-se, perfeitamente, a um universo estilizado, com identidade visual uniforme e envolto numa aura de mistério.
Na tela, acompanha-se a história de Tarik, um cientista moribundo, preso a uma cadeira de rodas e ligado a um respirador artificial, que trabalha num laboratório, juntando partes humanas, para montar seu "quebra-cabeça”. Porém, uma garota, Lia, é levada para o esconderijo de Tarik, despertando-lhe a atenção, por conta de um poder especial.
Uma cena em particular, no início do curta, chama a atenção: Lia, ainda dentro do carrinho sobre trilhos, é “atacada" por uma luz frontal forte e a contraluz enaltece seu rosto e os cabelos esvoaçantes. A composição dramática transmite o estado de apreensão da personagem, que, naquele momento, não sabe o que o futuro lhe reserva. Ao mesmo tempo, que o movimento dos cabelos da protagonista demonstra um entrosamento fluido e genuíno entre o animador e o diretor de fotografia, Alexandre Baxter.
Entre braços e pernas desgarrados, a moça mantém uma relação afetuosa com uma mão, acariciando-a. Ao leve toque feminino, o membro recupera os movimentos mesmo sem estar conectado com outro corpo. Percebendo que o dom que Lia possui concentra-se na sua mão direita enquanto a esquerda tem função paralisante -, Tarik encontra a peça valiosa para finalizar seu experimento.
No outro lado do recinto, sobre uma mesa, jaz o corpo incompleto de um homem nu. Faltam- lhe poucas partes - o membro superior direito, a mão esquerda, o coração e o cérebro - para que o protótipo humano ganhe vida. Gradativamente, Tarik coloca cada peça restante no seu devido lugar, até se preparar para finalizar sua criação, transplantando-lhe seu cérebro.
Quando tudo parece seguir como programado, Lia interrompe o processo e descarta o cérebro de Tarik. Então, ela decide se sacrificar, doando seu cérebro ao homem jovem, a fim de passar-lhe sua racionalidade e emoção.
A intrincada narrativa favorece diferentes interpretações para alcançar uma certeza: seu tom feminista. Tomemos como base uma perspectiva religiosa, a partir da representação pictórica A criação de Adão, de Michelangelo.
Tarik se aproxima de uma figura divina, pelo poder da criação e de uma quase imortalidade. Ainda que o corpo esteja envelhecido, depauperado, ele resiste ao tempo, com o auxílio de máquinas projetadas para substituírem certas funções vitais. Sua vida só será abreviada no ato de transplantar seu cérebro à sua criatura. Isso estaria, metaforicamente, representado, em parte, no afresco renascentista, a partir do momento que Deus estende o indicador da sua mão direita com o intuito de alcançar o indicador da mão esquerda de Adão.
O Criador, envolto em um manto com o formato de cérebro, ao lado de uma mulher - muito provavelmente Eva -, daria vida ao homem, ao mesmo tempo em que concederia seu conhecimento a ele, a partir do toque de sua mão. É com a figura de Lia que a animação subverte essa leitura e adquire um tom feminista. A mulher é que gera, dá a vida. Lia ignora uma construção social calcada no patriarcalismo e em fundamentos do Cristianismo, que hierarquiza os sexos, tendo a mulher socializada para a submissão, a obediência e a dependência masculina, enquanto que ao homem é conferido um "caráter superior", prático e racional.
Se, no primeiro momento, O quebra cabeça de Tarik mostra o cientista subestimando a inteligência de Lia, tornando-a prisioneira e a violentando, com a amputação de seu membro, no segundo instante, o filme contesta o modelo patriarcal/cristão, mostrando a mulher "empoderada", utilizando de sua sagacidade para se libertar e tomando a decisão que lhe é mais plausível: a criação do homem, a partir de sua inteligência emocional e racional.
Em tempos de retrocessos, onde o aprofundamento das desigualdades de gênero deriva da atualização desse projeto neoliberal pernicioso em voga, desenvolvido pela direita no mundo, O quebra cabeça de Tarik torna-se um filme necessário para promover reflexões e suscitar mudanças.
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